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Digger

Fracasso financeiro do filme teria sido maior do que o revelado; entenda

Digger — a Warner criou outro Blade Runner?

Digger é ao mesmo tempo o filme mais importante e o maior fiasco de 2026, graças à Warner tentando vender arte como blockbuster

Digger é o mais novo filme do cineasta mexicano Alejandro G. Iñárritu (Birdman, O Regresso), e o primeiro em inglês desde 2015. a trama sobre um magnata do petróleo vivido por um quase irreconhecível Tom Cruise, tendo que resolver um problema literalmente apocalíptico que ele mesmo criou, figura entre os lançamentos mais controversos de 2026.

Filme de Tom Cruise e Alejandro González Iñárritu pode registrar prejuízo de US$ 250 milhões e se tornar a maior bomba do século XXI

Visto como divisivo pela crítica, a trama que custou US$ 160 milhões aos cofres da Warner Bros. foi vendida ao público como um filme-pipoca, que é tudo o que Iñárritu nunca fez; a estreia catastrófica já lhe rendeu a pecha de o maior fracasso de bilheteria da carreira de Cruise, e um dos priores lançamentos no cinema neste ano; Digger é um filme de arte e autoral, com uma série de plot twists e críticas de mão pesada ao cenário político global, que jamais teria o alcance de um blockbuster

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Grupo Etverdade

Nota: a fim de comentar o que aconteceu com o filme, nós iremos abordar todos os SPOILERS de Digger e se você não quer estragar a experiência, PARE DE LER AGORA.

 

Cavando problemas

O filme começa com Digger Rockwell (Cruise), um magnata do petróleo, iniciando seu dia tendo que lidar com sua gata Maggie, a única coisa com a qual ele realmente se importa, morrendo. Ele é interrompido por uma chamada de sua equipe de operações na Groenlândia, que o poço que ele mandou perfurar inevitavelmente acertou um reservatório de metano, o que ele foi avisado diversas vezes mas ignorou, because money.

A explosão resultante desmembra um iceberg do tamanho do estado de Maryland (nota: é grande pra chuchu), que está em rota de colisão com a Noruega e, se ninguém fizer nada, a catástrofe resultará em maremotos que varrevão boa parte da costa europeia, causando trilhões de dólares de prejuízos em infraestrutura.

A decisão de Digger, obviamente, é conspirar com o também decrépito presidente dos Estados Unidos, Compson (John Goodman), para ocultar as informações da mídia e atrasar os esforços de evacuação, esperando que o bloco de gelo simplesmente derreta. Mas antes que isso aconteça, aqui vem a BARREIRA DE SPOILERS:

 

Daqui para a frente, tudo relativo ao filme é crucial para manter a surpresa. Este é seu último aviso.

Digger (Tom Cruise) tenta tratar sua gata decrépita Maggie em cena do filme Digger (Crédito: Divulgação/Legendary Pictures/Warner Bros. Pictures/Skydance)

Digger não se importa com ninguém, fora sua gata decrépita Maggie (Crédito: Divulgação/Legendary Pictures/Warner Bros. Pictures/Skydance)

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Uma falha e um movimento de câmera revela que a história até então… se desenrola em um set de uma peça de teatro. Digger Rockwell é na verdade um personagem, interpretado pelo ator Curtis Markson (Cruise, claro) em uma comédia chamada Fossil Fools. Compson e todos os demais personagens também são atores, e o que você viu até aqui foi o último ensaio antes da estreia.

Markson está fulo da vida com todo mundo, primeiro porque não concorda com as mudanças criativas endossadas pela diretora, Hannah (Sophie Wilde), enquanto está preocupado com a filha, que pegou um voo na Jamaica que está agora desaparecido, após um alerta de furacão “categoria 6”.

 

Sim, eu sei que a classificação vai até 5.

Kenny (Jesse Plemons), um dos produtores da peça, tranquiliza Markson dizendo que vai localizar o voo de sua filha, e o encoraja a retomar os ensaios. O set em si é notavelmente bem decaído, parecendo uma colcha de retalhos com pontos de mofo aqui e ali, o que é estranho, mas calma que chegaremos lá.

O ensaio é retomado; o bloco de gelo acerta a Noruega e inunda a costa da Europa, causando uma catástrofe sem precedentes. Rockwell e Compson são chamados diante do Parlamento Europeu, mas o presidente americano, que sofre de câncer colorretal, está em cirurgia e é representado por seu vice. Já Digger desfia um longo monólogo de DEZ MINUTOS (segundo informes, Iñárritu o reescreveu 70 vezes) e assume a responsabilidade pelo incidente, mas se exime da culpa por um simples motivo: o mundo depende de petróleo, e é ele quem cava para consegui-lo.

Nesse momento, o chefe de Desenvolvimento Ambiental da companhia de Digger, Dr. Nirav Ganesh (Riz Ahmed) dá uma notícia ainda mais aterradora: um bloco de gelo ainda maior, que se desprendeu de uma geleira russa, está a caminho do Alaska.

O presidente Compson, parcialmente recuperado da cirurgia (e bastante drogado) sugere atacar a China com nukes como distração, no que seu Chefe de Estado sugere mirá-las no iceberg; Ganesh alerta que fazê-lo só fragmentará o problema em inúmeros blocos menores, e o desastre ambiental que se seguirá terá implicações inimagináveis.

Todo mundo o ignora, as ogivas são lançadas, e tudo acontece exatamente como Ganesh previu, com um apocalipse ambiental que joga a Terra em uma espiral descendente incontrolável, ficando parcialmente inundado, com oceanos irremediavelmente poluídos e o ar absolutamente irrespirável.

Essencialmente, um bando de idiotas destruíram o mundo.

Digger (Tom Cruise) dá as más notícias ao gabinete do presidente dos EUA (John Goodman) em cena de Digger (Crédito: Divulgação/Legendary Pictures/Warner Bros. Pictures/Skydance)

As cenas envolvendo o gabinete do presidente dos EUA são uma óbvia referência a Dr. Fantástico (Crédito: Divulgação/Legendary Pictures/Warner Bros. Pictures/Skydance)

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Nesse momento, Markson tem um colapso no palco e interrompe outra vez o ensaio, dizendo que a peça distorce a História e faz chacota do que aconteceu, e aí vem o segundo plot twist: Fossil Fools é uma peça baseada em eventos reais. Os acontecimentos descritos até aqui ocorreram de verdade, apenas não da forma tão absurda como a interpretada na montagem, daí a reclamação do protagonista.

Todos ali estão vivendo em um mundo 25 anos após os desenvolvimentos que transformaram a Terra em uma tumba, cavada por Digger, Compson e cia.

Nesse momento, Kenny entrega a reviravolta final ao confortar Markson: ele é sobrinho do verdadeiro Digger Rockwell, e comprou os direitos da peça porque para ele, não importa se Fossil Fools é uma comédia ou um drama – todo mundo perdeu alguém ou alguma coisa no apocalipse e agora é forçado a velar um mundo morto, enquanto espera a própria morte.

Sua real intenção ao fazer de Fossil Fools uma comédia intencionalmente exagerada, é dar ao público um momento catártico, ao lamentar suas perdas com risos enquanto se refestelam do fim mais que adequado de Digger: sozinho, isolado, e vítima de sua própria arrogância e ambição, ao querer tudo e acabar sem nada.

No fim, a peça é ovacionada e Markson descobre que, graças aos esforços de Kenny, sua filha está sã e salva. A audiência então é alertada sobre um “estado Nível 4”, e colocam suas máscaras de gás antes de saírem do teatro, de volta à realidade de um mundo muito em breve inabitável, cortesia de Digger Rockwell.

Digger: Warner não fez a lição de casa

Iñárritu desenvolveu o roteiro de Digger enquanto filmava O Regresso, e pretendia oferecê-lo à Netflix, que o rejeitou em prol do similar Não Olhe Para Cima. No entanto, seu filme acerta bem mais do que a produção de Adam McKay por ser e ao mesmo tempo não ser óbvia: enquanto o filme da plataforma de streaming usou personagens que eram pastiches de personalidades atuais, a trama de Cruise fez uso da mesma temática (Fim do Mundo devido à imbecilidade humana) usando o mercado petroleiro como base.

Nesse sentido, Digger ficou muito mais parecido com Dr. Fantástico, com interpretações até bem parecidas: o presidente Compson, por exemplo, consegue ser ainda mais inepto (principalmente por ser um cadáver ambulante) do que Merkin Muffley, e Digger Rockwell tem a gravitas de um Dr. Strangelove extremamente egocêntrico.

Digger (Tom Cruise) faz um longo monólogo diante do Parlamento Europeu em cena de Digger (Crédito: Divulgação/Legendary Pictures/Warner Bros. Pictures/Skydance)

As atuações são exageradas de propósito (Crédito: Divulgação/Legendary Pictures/Warner Bros. Pictures/Skydance)

A crítica está avaliando o filme como controverso, acusando-o de conter atuações over the top (embora saibam que foram intencionais) e piadas tão certeiras ao mirarem na situação geopolítica atual que causam desconforto; no Rotten Tomatoes, Digger pontua surpreedentemente melhor entre o público, embora tenha sido tão mal vendido quanto Blade Runner e vítima de uma jogada de marketing que o promoveu como uma comédia rasgada e uma paródia simples de Dr. Fantástico e Não Olhe Para Cima.

Ao invés disso, quem já conhece o trabalho de Iñárritu já deveria saber que o filme poderia ser tudo, menos raso e superficial. O cineasta mexicano embalou o filme em camadas e promoveu uma estratégia a lá Matrix, esperando que o público fosse às salas de cinema sem saber nada sobre a película, mas a Warner, em sua sanha de vender o novo filme de Tom Cruise, e com gente do quilate de John Goodman, Sandra Hüller, Michael Stuhbarg, Jesse Plemons e outros no elenco de suporte, tratou de jogar um caminhão de dinheiro na produção.

A esperança de receber muito mais de um filme autoral resultou em um dos maiores desastres de bilheteria do ano.

Jesse Plemons como *SPOILER* em cena de Digger (Crédito: Divulgação/Legendary Pictures/Warner Bros. Pictures/Skydance)

Para surpresa de todos, Jesse Plemons é a espinha dorsal do filme (Crédito: Divulgação/Legendary Pictures/Warner Bros. Pictures/Skydance)

Conclusão

Digger é um filme tão atual que chega a ser incômodo, a crítica de mão pesada àqueles em situação de poder encontra paralelos tão gritantes que muita gente tem saído do cinema com um visível mal-estar. Eu mesmo notei gente rindo das piadas, mas de nervoso por elas serem extremamente certeiras, e não foram feitas para serem levianas.

As semelhanças com Dr. Fantástico são bastante óbvias: assim como Stanley Kubrick, Alejandro G. Iñárritu teceu uma ópera bufa em que o mundo é destruído por um bando de idiotas egocêntricos, sedentos por dinheiro e poder. Apenas sai o holocausto nuclear e entra uma catástrofe ambiental causada pela mão humana, que converte o planeta em um túmulo; a diferença é que em Digger, a humanidade vai morrer lentamente.

No entanto, a presepada da Warner ao vender o filme errado custou caro: com um orçamento de US$ 160 milhões, o final de semana de abertura rendeu ridículos US$ 8 milhões nos EUA e US$ 20 milhões globalmente, fazendo deste o filme estrelado por Tom Cruise com a pior bilheteria de estreia de sua carreira.

Talvez porque aqui, ele não corre.

Tom Cruise como Digger Rockwell, em cena do filme Digger (Crédito: Divulgação/Legendary Pictures/Warner Bros. Pictures/Skydance)

Digger pronto para cavar (Crédito: Divulgação/Legendary Pictures/Warner Bros. Pictures/Skydance)

A Warner Bros., recém-fundida à Paramount e agora operando sob o nome Skydance, já entrou em modo controle de danos: Digger está deixando as salas IMAX após apenas uma semana em cartaz, e será substituído nas telas enormes pela Odisseia de Christopher Nolan, para obviamente fazer dinheiro.

O ponto é que o filme de Iñárritu jamais deveria ter sido desenvolvido como um blockbuster, ele é um autoral de arte, daqueles que são sustentados por Superman, Velozes e Furiosos e cia., mas ainda assim, é preciso reconhecer que mesmo para os padrões do diretor, Digger foi muito mal de bilheteria: para dar uma ideia, O Regresso custou US$ 135 milhões à Fox, e teve uma abertura de US$ 38 milhões nos EUA e Canadá e US$ 72 milhões ao todo.

O filme está longe de ser ruim, ainda que crie uma ou outra barriga (o monólogo no Parlamento é mais longo do que deveria, não tem como negar), mas é fato que Digger jamais deveria ter sido posicionado como um filme-pipoca, a fim de justificar o enorme orçamento e seu cast de estrelas.

Não é impossível que a película acabe repetindo o que aconteceu com Blade Runner, um fiasco de bilheteria que se tornou um clássico, mas até lá, Digger vai sair bem caro para a Warner e todos os envolvidos.

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